Consciência humana pode funcionar como computador quântico

Mencionar o título “consciência quântica” pode irritar grande parte dos físicos, como se a frase evocasse uma ideia de misticismo “New Age”. Porém, se uma nova hipótese provar-se correta, efeitos  quânticos podem, de fato, ter algum papel na cognição humana. O físico Matthew Fisher, da universidade da Califórnia, publicou um artigo na revista “Annals of Physics”, propondo que spins nucleares de átomos do fósforo podem atuar como uma espécie de “qubits” no interior de nossos cérebros, algo que faria com o que o cérebro agisse como um computador quântico.

ohDesde 1989, quanto o proeminente Roger Penrose, físico e matemático britânico, propôs a ocorrência de efeitos quânticos no cérebro, através dos microtúbulos – misteriosas estruturas celulares- os físicos parecem ter enjoo ao ouvir falar em teorias como esta. Apesar disso, alguns cientistas acreditam ser plausíveis estas hipóteses, desde que os fenômenos quânticos foram observados em processos biológicos, como na ecolocalização das aves e na fotossíntese das plantas.

A hipótese de Fisher encara o mesmo obstáculo que praguejou os microtúbulos: um fenômeno conhecido por decoerência quântica. Para construir um computador quântico, torna-se necessário conectar ‘qubits’ – bits quânticos de informação – num processo chamado de entrelaçamento quântico, outro fenômeno bizarro que desafia as leis da física clássica. O problema é que os ‘qubits’ entrelaçados existem apenas sob estados físicos muito delicados. Eles devem estar cuidadosamente envolvidos e protegidos de qualquer ruído externo que esteja nas redondezas do sistema físico em que residem. Um único fóton bombardeado para os ‘qubits’ é suficiente para o sistema todo cair em decoerência, destruindo o entrelaçamento e desligando todas os efeitos quânticos que ocorriam no sistema. Isto desafia o processo quântico de modo suficiente, mesmo em um laboratório moderno e controlado. O que dizer dos sistemas biológicos humanos? Muito úmidos, quentes e complicados, em que se torna praticamente impossível manter a coerência quântica por longos períodos.

Apesar disso, na última década houve um crescimento de evidências biológicas que suportam a ideia da existência de fenômenos quânticos nos sistemas vivos. Conforme mencionado, os efeitos quânticos sobre a fotossíntese e a utilização do “compasso quântico” nas aves migratórias, que utilizam este efeito para perseguir as linhas de campo magnético da terra.

Esta noção de Fisher, ou até mesmo de Penrose, sobre efeitos quânticos persistentes na mente humana, encaixa-se no campo da biologia quântica, mais precisamente, na neurociência quântica. Fisher desenvolveu uma hipótese complicada, incorporando física nuclear, mecânica quântica, química orgânica, neurociência e biologia. Enquanto suas ideias esbarram em ceticismo exagerado de seus pares, alguns pesquisadores passaram a prestar atenção em sua hipótese. “Aqueles que leram o artigo, podem, ao menos, concluir: ‘este velho não está doido'”, afirma John Preskill, físico do CALTECH (Instituto de Tecnologia da Califórnia). O físico acrescenta sobre Fisher: “Ele pode estar sobre alguma coisa. Pelo menos ele vem com algumas questões bem interessantes”.

 

Da turma dos céticos, Senthil Todadri, amigo de longa data de Fisher, afirma que o trabalho de Fisher abre portas para refazer a pergunta de modo correto: “existe algum efeito quântico ocorrendo na cognição humana?”. A pesquisadora Alexandra Olaya-Castro, física da University College London, que trabalhou com a fotossíntese quântica, denomina a ideia como bem pensada, mas faz algumas ressalvas: “A hipótese não fornece respostas, porém abre questionamentos que podem nos levar à metodologia de teste destas hipóteses”. “Estas ideias de Fisher abrem possibilidades para a experimentação”, afirma Peter Hore, químico da Universidade de Oxford e investigador do sistema quântico das aves migratórias.

Fisher pertence à uma dinastia de físicos consagrados. Seus pai, Michael E. Fisher, é um físico proeminente na Universidade de Maryland, College Park, que trabalhou com física estatística e foi laureado com diversas honras e prêmios em sua carreira. O irmão de Matthew, Daniel Fisher, é físico aplicado da Universidade de Stanford, e tornou-se especialista em dinâmica evolutiva. Matthew Fisher seguiu os passos do pai e do irmão e construiu uma carreira de sucesso, tendo sido laureado com o prestigioso prêmio Oliver E. Buckley, em 2015.
Em breve, a sequência da reportagem!